20161014

Férias romanas com gata em telhado de zinco

Durante as minhas férias em Roma, fotografei, sem o saber, a presidente da Câmara, Virgínia Raggi, a conversar com o chefe de gabinete no telhado da autarquia. A foto tornou-se depois na imagem viral do dia em Itália, saiu na primeira página da maioria dos jornais e levou o primeiro-ministro Matteo Renzi a comentar: “O problema não é Raggi no telhado. É quando desce”. Fica aqui o relato detalhado de como tudo aconteceu. ---------------------------------------------------- Sinceramente, não estava à espera que uns dias de férias em Roma fossem acabar com uma fotografia da minha autoria a circular nas redes sociais italianas, televisão e principais jornais e, mais importante ainda, que a fotografia captada pelo “giornalista portoghese” fosse aproveitada pelo primeiro-ministro Matteo Renzi para fazer humor e introduzir um novo chavão na política italiana. Daqui para a frente, qualquer discurso político em Itália vai ter um duplo sentido cada vez que for mencionada a palavra “telhado”, pois a foto retrata o momento em que a jovem presidente da Câmara de Roma, Virgínia Raggi, eleita pelo Movimento 5 Estrelas, fundado por Beppe Grillo, conversava com o seu chefe de gabinete, Salvatore Romeo, no telhado da Câmara Municipal de Roma. Advogada de profissão e especialista em direitos de autor, Raggi está debaixo dos olhos do mundo desde que foi eleita para o cargo em Julho deste ano. Não só se trata de uma jovem – nasceu em 1978 - “outsider” da política, como é a primeira mulher a ocupar aquele cargo, o que lhe poderá abrir portas para futuros voos políticos. A foto é uma daquelas imagens que faz as delícias de qualquer jornalista, sobretudo pelo facto de na altura em que acontece aquela insólita reunião no telhado, a autarca tinha nas mãos a decisão de candidatar ou não Roma aos Jogos Olímpicos de 2024 e de anunciar os nomes dos vereadores que faltavam para completar o seu executivo. O mais irónico nisto tudo é que quando, como qualquer turista, subi ao topo do monumento a Vítor Emanuel II e captei a foto que, na sexta-feira, dia 30 de Setembro, foi considerada a “imagem viral do dia” em Itália, não identifiquei imediatamente os protagonistas e a importância jornalística da cena. Apenas achei que era um momento insólito num dia em Roma com dois habitantes locais. A história de como e porquê fiz a foto, assim como descobri quem eram os retratados e como depois a imagem se espalhou pela redes sociais e jornais italianos, é também toda ela uma reflexão sobre o jornalismo nos dias de hoje. Eu próprio ainda estou a tentar perceber o que criei. E é algo que merece ser contado com detalhe. Vamos então a isso. -------------------------------- Segunda-feira, dia 26 -------------------------------- A primeira vez que visitei o monumento a Vítor Emanuel II, em Roma, foi em 2005. Este pormenor é importante para o relato que se segue. Passados mais de 10 anos regressei à cidade eterna para uma semana de férias. Cheguei na segunda-feira, dia 26 de Setembro, e fiquei num hotel perto do Vaticano, a poucos passos do Castelo de S. Ângelo. Era uma zona que conhecia bem devido ao facto de, em 2005, ter estado uma manhã inteira na ponte Vittorio à espera de um autocarro. Não se tratava de um autocarro qualquer. Queria fotografar um que circulasse em Roma com publicidade ao livro La Morte del Papa - tradução italiana de O Último Papa -, do escritor português Luís Miguel Rocha. Nessa altura, acompanhei o Luís à capital de Itália para uma reportagem publicada na revista Focus. Tratava-se do primeiro livro deste autor – desaparecido precocemente no ano passado - sobre os bastidores do Vaticano, onde contava a história da morte do Papa João Paulo I, em 1978. Desta vez, no regresso a Roma, não queria ouvir falar em trabalho. As bancas de recordações na capital da Itália têm à venda, entre outros artefactos, uma série de postais, imans para frigoríficos e calendários do filme “Vacanze Romana” de William Wyler, com Katherine Hepburn e Gregory Peck. Sentia-me um pouco como o jornalista dessa história, apenas a passear sem muitas preocupações profissionais. Rstava longe de imaginar que iria acabar por encontrar-me com uma notícia. Viajava em boa companhia e apenas procurava estar minimamente atento ao desenrolar da “novela” da candidatura de António Guterres a secretário-geral da ONU e comprovar se a búlgara Kristalina Georgieva, iria mesmo surgir como candidata de “última hora” e complicar a vida ao nosso ex-primeiro-ministro. Isso confirmou-se logo na segunda-feira e depois procurei descansar das notícias de Portugal e das locais. Desliguei a rede de internet no telemóvel, até para poupar dados de roaming. Fomos ver o pôr-do-sol junto ao farol de Gianicolo. Os últimos raios de sol batiam na città aperta – o nome do filme de Rosselini em 1945. E lá estava ele. Sobressaindo entre as cúpulas de igreja e basílicas, o monumento a Vítor Emanuel II, encimado com as duas quadrigas. Era irresistível o seu chamamento. Destacava-se bem na paisagem. Chamava-nos.------------------------------------------
Ver o pôr-do-sol junto ao farol de Gianicolo
E lá estava ele. Sobressaindo entre as cúpulas de igreja e basílicas, o monumento a Vítor Emanuel II, encimado com as duas quadrigas ----------------------------- Terça-feira, dia 27 ----------------------------- O dia seguinte, terça-feira, 27, calhou ser o dia internacional do Turismo. Oferecia-se assim uma rara oportunidade de visitar o museu do Vaticano sem pagar entrada, o que se apresentava como a melhor opção, uma vez que este museu não está contemplado no “Roma Pass”, o bilhete que combina os transportes públicos com a entrada em dois espaços turísticos à escolha. Foi deste modo que, para o dia seguinte, ficou marcada a segunda visita obrigatória de qualquer turista em Roma e que, obviamente, é o Coliseu e respectiva área envolvente uma vez que a entrada, ao contrário do Vaticano, está contemplada no “Roma Pass”. Assim, aproveitada a oportunidade, visitámos a Capela Sistina - onde é proibido tirar fotos - e ainda interior da Basílica de S. Pedro e subimos à cúpula – aviso: são cerca de 500 degraus. Pelo fim da tarde, fomos à Fontana di Trevi, o lugar do mítico encontro da Dolce Vitta de Felinni, que imortalizou o abraço de Marcello Mastroianni a Anita Ekberg. E a expressão “paparazzo”, associada aos fotógrafos das vedetas sociais. Caminhámos depois até a Via del Corso. À direita, vislumbrava-se uma praça com uma coluna. Era a Praça da Coluna e reparei que, em frente a esse monumento, estava a redacção de um conhecido diário italiano, Il Tempo. Achei lindo o local e senti saudades do tempos em que os jornais portugueses estavam no Bairro Alto, no meio da confusão de uma cidade que vive. Acabámos, por seguir para a esquerda, deixado para trás a Praça do Popolo e dirigimo-nos para a Praça de Veneza. O sol começava a pôr-se, com os últimos raios a tocarem no monumento ao rei Vítor Emanuel II, dito o fundador da pátria italiana. Era filho de Carlos Alberto, aquele que morreu no Porto, e foi o pai da nossa rainha Maria Pia, logo, avô de D. Carlos I. É uma obra imponente, cuja construção foi iniciada no Séc. XIX. E polémica. Os romanos com mais sentido de humor chamam-lhe “a máquina de escrever”, por se assemelhar a uma daquelas antigas máquinas com os dois rolos e o teclado em meio-círculo. Há também quem o trate por “bolo da noiva”, devido ao facto de ser todo ele branco e adornado como se fosse chantilly. Como disse, a primeira vez que o visitei foi em 2005. E nessa altura não havia ainda o elevador na traseiras que permite hoje um rápido acesso ao topo. Reparei então nessa novidade e ficou desde logo decidido que, no dia seguinte, após a visita ao Coliseu, nas traseiras do monumento, iríamos ver Roma desde aquele ponto de observação.-------------------------------------
Visitámos a Capela Sistina - onde é proibido tirar fotos
O lugar do mítico encontro da Dolce Vitta de Felinni, que imortalizou o abraço de Marcello Mastroianni a Anita Ekberg
Era a Praça da Coluna e reparei que, em frente a esse monumento, estava a redacção de um conhecido diário italiano, Il Tempo
Os romanos com mais sentido de humor chamam-lhe “a máquina de escrever”, por se assemelhar a uma daquelas antigas máquinas com os dois rolos e o teclado em meio-círculo
Iríamos visitar o Coliseu na manhã seguinte ---------------------------- Quarta-feira, dia 28 ---------------------------- O Coliseu é uma obra esmagadora. O Fórum Romano é igualmente magnífico. Para quem tem ruínas romanas em Conínbriga, um teatro romano em Lisboa e o templo de Diana em Évora, aquilo é tudo isso ao cubo e ao mesmo tempo. Ainda assim, paradoxalmente, o local que mais me agradou é onde há menos para ver e onde fiquei a olhar com mais atenção. É o espaço que assinala o lugar onde o corpo de Júlio César foi queimado, depois de morto à traição. Muitos invasores de Roma tentaram destruir este símbolo e fazer esquecer a evocação de um dos mais citados nomes da História Universal. Sem sucesso. Ainda hoje e, sobretudo, nos idos de Março, há quem vá ali colocar flores. Gostei de o visitar. Tirava fotos de forma frenética a todas as pedras enquanto seguíamos o normal roteiro da visita. A máquina fotográfica começava ressentir-se e o mostrador indicava que a bateria queixava-se. Deveria poupar, senão não sobrava energia para quando estivesse a vista no topo do monumento a Vítor Emanuel. É uma máquina simples, uma compacta que custa cerca de 200 euros no mercado. Tem um bom zoom e ligação wifi. Resolvemos fazer uma pausa para almoçar. A Via Carvour, a meio caminho entre o Coliseu e o ponto onde queríamos ir a seguir, pareceu-nos a opção mais acertada. Encontrado um local agradável, almoçámos e, finalmente, seguimos para o próximo ponto de visita turística: a “máquina de escrever”. Passava pouco das 15 horas. A subida no elevador custou-nos 7 euros a cada um um. Não havia fila, o que é uma raridade em Roma. Caso a fila fosse daquelas de horas, ter-nos-ia feito reconsiderar a visita. Foi rápido atingir o topo. Assim que saímos do elevador, constatamos o privilégio de ali estarmos. A Via del Corso abria-se perfeitamente alinhada com o centro do monumento. As várias cúpulas de Roma estavam à nossa frente. Ainda antes de avançar para o centro do topo do monumento, virei à direita do elevador e comecei a fotografar a vista das traseiras. Era ali que estava a área que tínhamos visitado durante a manhã. Uma nova perspectiva para o Coliseu e o Fórum Romano. Identifiquei o local da morte de Júlio César. E depois olhei para o edifício mais à direita. Tinha uma torre. E bandeiras. Podem dizer o que quiserem, mas face ao Coliseu, face a toda a Roma antiga, face ao local da morte do Imperador, não pensei sequer que poderia estar a olhar a câmara Municipal de Roma. Reparei, no entanto, que era um edifício oficial, pois tinha as bandeiras de Itália, União Europeia e da cidade de Roma. Lembrava-me ainda que, em 2005, numa visita nocturna que tinha feito por aquela área na companhia do Luís Miguel Rocha, alguém tinha mencionado a palavra “Senado”. E pensei que poderia ser mesmo o Senado, mas pareceu-me algo modesto e não tinha a certeza se era mesmo ali. Pensei que poderia ir depois verificar toda a história, à noite, no hotel. Não me interessava pensar muito e estava mais interessado em absorver sensações do que saber. Foi assim, de uma forma relaxada, que a minha atenção centrou-se numa cena insólita: duas pessoas, um homem e uma mulher, conversavam no telhado daquele edifício, com Roma a seus pés. Achei aquilo um momento lindo, digno de poesia e tive inveja deles. Como gostaria eu de também estar ali. A vista que tinham deveria ser igualmente soberba. Por instinto, apontei a câmara para aquela cena. Quando carreguei no botão eram 15h21 do dia 28 de Setembro de 2016. Depois, apliquei o zoom – gosto de experimentar a capacidade da máquina nesse campo. Não me pareceu que estivesse a violar a privacidade de ninguém, nem que estivesse a fazer de “paparazzo”. Não conhecia as pessoas. Apenas as fotografei por ser uma cena rara. Voltei as costas ao casal e fui ver Roma. Um pouco mais ao lado do local de onde tinha feito as fotografias há um ponto de binóculos públicos. Sem que tivesse sido necessário colocar uma moeda apontei para o casal no telhado. Reparei que a mulher, sentada e virada para a Via do Corso, denotava alguma tensão nas sua forma de se exprimir, enquanto que o homem, de costas para Roma, parecia apresentar os seus argumentos de uma forma mais calma. Pensei que fossem funcionários de um qualquer organismo público. Acreditava que tinham tomado uma pausa para fumarem um cigarro e aquilo era algo que acontecia todos os dias. Deixei os binóculos e não pensei mais em analisar a cena no telhado e fui fotografar o resto da vista de Roma vista desde o alto, com as quadrigas que encimam o monumento. Lembro-me apenas de comentar: “Ela tem mais poder do que o homem, isso nota-se pela linguagem corporal. E parece preocupada com algo”. Deixei de lado o momento em que pensava como jornalista e voltei apenas a ser turista. Após a descida, o ponto seguinte no roteiro improvisado era o Panteão. Uma obra com uma cúpula única no mundo. E é ainda onde está o túmulo do próprio Vítor Emanuel II e, mais importante, a última morada do pintor renascentista Rafael. O passo seguinte era irmos até às célebres escadas da Praça de Espanha, o local dos grandes desfiles de moda em Itália. Metemo-nos pela Via Madalena e decidimos que deveríamos comer um gelado pelo caminho. A Gelateria della Palma oferece uma escolha de 150 sabores. Não é fácil decidir o que comer. E, ainda por cima, são todos bons. Perante turistas ingleses adolescente que escolhiam o cone “Monstro” com dez, sim dez, bolas, optei por um modesto de três bolas. Estava ainda com o gelado na mão quando entrei numa praça onde estavam polícias e uma câmara de televisão à frente de um edifício. Perguntei aos agentes de autoridade o que era aquele palácio que guardavam. Era o Parlamento. Continuei a caminhada no sentido da Praça de Espanha, ainda com o gelado na mão. Reparámos que a câmara de filmar estava identificada como sendo da RAI, a principal televisão de Itália. O facto de estar ocupado a comer o gelado levou-me a hesitar, mas a curiosidade em saber se as pessoas que tinha fotografado seriam ou não conhecidas levou-me a apresentar-me como jornalista português e a mostrar a imagem. O camareman olhou e disse-me logo que eu tinha apanhado a presidente da Câmara Municipal, a “sindica” de Roma, Vírgina Raggi. Não conseguimos disfarçar a surpresa. Fiquei sem saber bem o que fazer. A máquina, entretanto, acabou-se. Desligou-se sem bateria. Passava já das 17h, agradeci ao cameraman e seguimos o caminho para a Praça de Espanha, a rir com cena. A praça seguinte surgiu-nos com alguma familiaridade. Era a Praça da Coluna, onde no dia anterior, desde o lado oposto àquele onde me encontrava, vira as letras a identificar o edifício do Il Tempo. A minha primeira reacção foi ir bater à porta do jornal para lhes mostrar a foto. Era só tirar do cartão e passar para um computador para a observar em detalhe. Apresentei-me a segurança como sendo jornalista de Portugal e perguntei se seria possível subir para falar com algum jornalista pois tinha tirado uma fotografia que acreditava que eles iriam querer ver. Não disse do quê nem de quem. Esperei um pouco à porta e quando o segurança regressou, informou-me que já não havia ninguém na redacção. Apenas a secretária e o director. Entregou-me depois um papel escrito à mão. Era o endereço de e-mail da secretária: segreteria@iltempo.it. Olhei para aquilo e não quis acreditar. Estava à porta de um jornal, apresentara-me como jornalista estrangeiro com algo potencialmente digno de notícia e a alternativa era enviar um e-mail. Insisti e disse que queria falar pessoalmente com a secretária. O segurança revelou-se bastante prestimoso e colocou-me em contacto com a pessoa em questão-chave através do telefone da recepcção. Falei então com uma senhora a quem expliquei, agora sim, que tinha feito uma fotografia à presidente da Câmara de Roma, como turista, desde o topo do edifício a Vítor Emanuel II. A secretária do Il Tempo repetiu a informação de que já não havia ninguém na redacção e que eu deveria enviar a foto por e-mail. Fiz-lhe ver que só iria ter a possibilidade de passar a foto para um computador na sexta-feira, dia 30, à noite, quando chegasse a Lisboa. E só então é que a poderia enviar por e-mail. Se me deixasse ir à redacção, poderia então fazer essa transferência de forma imediata. Nada. Que tentasse fazer isso, à noite, no meu hotel. E que depois lhes enviasse por correio electrónico. Suspirei, agradeci e desliguei. Decidimos voltar a ir fazer turismo. Visitámos a Praça de Espanha e seguimos depois para a Praça do Popolo, onde fomos os últimos a sair da Igreja de Santa Maria del Popolo depois de admirar os Caravaggio que aí estão. À noite, no hotel, tentei fazer a ligação entre a rede de wifi e a câmara fotográfica enquanto esta carregava a bateria. Não consegui. Adormeci a pensar em alternativas.----------------------------------
Um "gladiador" dos tempos modernos...
Para quem tem ruínas romanas em Conínbriga, um teatro romano em Lisboa e o templo de Diana em Évora, aquilo é tudo isso ao cubo e ao mesmo tempo
Ainda hoje e, sobretudo, nos idos de Março, há quem vá ali colocar flores
Tirava fotos de forma frenética a todas as pedras enquanto seguíamos o normal roteiro da visita
Deveria poupar, senão não sobrava energia para quando estivesse a vista no topo do monumento a Vítor Emanuel
Virei à direita do elevador e comecei a fotografar a vista das traseiras
Pensei que fossem funcionários de um qualquer organismo público ------------------------------- Quinta-feira, dia 29 ------------------------------- Sucesso! De manhã, ao experimentar novamente a conexão de wifi entre a rede do hotel e a câmara, consegui transferir as imagens via e-mail para uma caixa de correio em meu nome. Dali, mandei depois as fotografia de Virgínia Raggi no telhado da Câmara de Roma para a secretaria do diário Il Tempo. Fomos depois aproveitar o nosso penúltimo dia em Roma para visitar obras de arte em algumas das igrejas que entretanto havíamos seleccionado. No e-mail para o jornal não dei muitas explicações. Apenas disse que, se estivessem interessados nas fotografias, que me telefonassem. E seguia-se o meu número de telemóvel. Ainda não tinha entrado no metro quando uma dúvida me assaltou o espírito: será que tinha enviado para o endereço correcto? E se me enganara numa letra. Fui confirmar. Sim. Secretaria, em italiano, escrevia-se com dois “e” e eu tinha escrito à portuguesa, com um “a” em vez do último “e”. E “Tempo”, que é igual em português, tinha merecido o acrescento de um “i”, tendo ficado “Tiempo”, como na língua espanhola. A minha caixa de e-mail, aliás, já apresentava a mensagem que indicava a falha de envio. Corrigi aqueles dois erros e enviei de novo. Não recebi nenhum aviso de erro e calculei que tudo estava bem. Agora era só esperar pelo telefonema. Um telefonema que nunca chegou ao longo do dia. E só percebi porquê, muito mais tarde. Já de regresso a Lisboa. Em italiano, “secretaria”, não muda apenas no último “a”. Também muda na letra “c”, que passa a “g”, escrevendo-se “segreteria”. Essa pequena perninha do “c” que faz um “g”, não me pareceu tão perceptível quando olhei para o papel manuscrito que o segurança do Il Tempo me entregou. Na rota das igrejas, estava incluída a Igreja de Santa Maria da Vitória, onde se encontra a famosa estátua de Bernini, O Êxtase de Santa Teresa. Para lá chegarmos, tomámos o metro até ao local mais perto, o que nos fez depois subir a Via Barberini. À medida que ia olhando para as montras de algumas das lojas e lia os nomes de placas à porta dos edifícios, reparei numa que indicava ser a redacção de Roma do diário La Stampa. Ainda não tinha recebido qualquer telefonema do Il Tempo ( e ignorava ainda que muito provavelmente ninguém recebera o meu email), pelo que considerei a hipótese de adiar por uns instantes a ida à igreja e ir bater à porta desse outro jornal onde o destino acabara de me fazer passar. Não sei se foi pelo facto de ter ficado desiludido com a experiência do dia anterior, o certo e que optei por prosseguir o caminho e continuamos a subir a rua. Era quase meio-dia e a igreja iria fechar. A estátua de Bernini é, de facto, admirável, assim como a do Moisés na fonte ali ao lado. Foi assim que o La Stampa perdeu também o exclusivo, mas estes só podem lançar as culpas a Bernini e ao seu Êxtase de Santa Teresa. No fim do dia, cansados de percorrer igrejas e depois do jantar, finalmente de regresso ao hotel, não havia qualquer registo de um telefonema. Resolvi colocar as imagens na minha página do Facebook e coloquei as definições de privacidade para “amigos” apenas. Fomos dormir. No dia seguinte seria o último dia em Roma. O avião estava marcado para as 16h, mas teríamos de apanhar o autocarro para o aeroporto perto das 14h. Isso daria apenas tempo para um último passeio pelos arredores do hotel, comprar as recordações e almoçar antes de partir para Lisboa.
Também muda na letra “c”, que passa a “g”, escrevendo-se “segreteria”
A estátua de Bernini é, de facto, admirável ------------------------ Sexta-feira, dia 30 ------------------------ Ao longo do Tibre, perto do castelo de Santo Ângelo, há umas bancadas de venda de livros antigos e recordações de Roma. Era ali que me encontrava quando, pouco antes das 10h recebi um telefonema do meu amigo José Miguel Sardo, jornalista português na Euronews, em Lyon, França. Ele vira a foto e falará com contactos italianos. Mas, não se via bem a imagem. Perguntou-me se a poderia colocar no Twitter. Eu sabia que isso seria tornar a imagem pública e praticamente ceder os direitos sobre a mesma. No entanto, estava também curioso para ver até onde é que o interesse sobre a fotografia iria. Através do telemóvel, enquanto cruzava a Ponte de Santo Ângelo, lancei a foto na minha conta Twitter, apenas com uma frase: “Surpresas nos telhados de Roma”. O Sardo replicou a mensagem e colocou a identificação da autarca de Roma e a indicação de um camarada seu, em férias, tinha captado aquela imagem. Depois, bem depois, foi a loucura. A imagem tornou-se “viral”. Ainda não tinha chegado à estação de Termini para embarcar no autocarro que nos iria levar até ao aeroporto, já tinha no meu e-mail um pedido da estação televisiva estatal RAI para que os contactasse por causa dos direitos de utilização da imagem. Enviei-lhe mais fotos inéditos, que foram usadas no telejornal dessa noite. A foto estava a espalhar-se nas edições de Internet dos jornais. Havia a dúvida de quando é que a imagem fora obtida. Ainda no caminho para o aeroporto, lancei um twitter a explicar que fora captada na quarta-feira, pelas 15h, o que ajudou a contextualizar o momento. Era na véspera de Virginia Raggi confirmar que Roma não iria ser candidata aos Jogos Olímpicos de 2024. Era também a altura em que estava a decidir a escolha dos vereadores que faltavam para completar o seu excutivo. Estava na fila para o embarque no avião para Lisboa quando discuti os últimos detalhes da publicação das fotos pela RAI. E tive ainda tempo para me rir com os cartoons que a foto já provocara. Havia uma Raggi, no telhado, ao lado do Batman, a apontar os holofotes para o céu, como em Gotham City, à procurar dos vereadores. E o Batman a explicar que não era assim que se fazia. Outro cartoon explicava que, no passado, quando se subia para o telhado, era para se fumar droga às escondidas. Custou-me um pouco ter de desligar o telemóvel quando o avião teve de descolar. Na realidade, acabara de ficar sem bateria. Mas, ainda antes de abandonar Roma, graças à tradução feita de um amigo de Sardo, em França, deixei uma última mensagem em italiano. Garanti que, quando tirei a foto, não sabia quem era a personalidade que estava a retratar nos telhados da capital de Itália. Essa mensagem fez rir muitos espectadores que, nessa noite, na RAI3, no programa Gazebo, analisavam os twitters do dia. Estive desligado do mundo, literalmente, enquanto o avião ia de Roma para Lisboa. Deixara Roma a arder. O dia estava quase a terminar quando, por fim, consegui ligar-me ao mundo, já no sossego de casa. A notícia aumentava de interesse e até a própria Virginia Raggi reagira através de uma mensagem no seu Facebook, dizendo que a vista do local onde se encontrava com Salvatore Romano, o seu chefe de gabinete, era belíssima. E que uma pausa para uma merenda, é algo que não se nega a ninguém. Sorri com aquele “fair-play” e com a tentativa de diminuir a importância da conversa no telhado da câmara. Eu sei que aquela pausa foi aproveitada para uma conversa séria. Não tenho muitos dados para sustentar esta impressão excepto o facto de Raggi me ter parecido preocupada com algo, enquanto que o seu chefe de gabinete tentava ser mais comedido. Mas, lá está, não conheço nenhum deles pessoalmente, não sei se aquela era a sua forma natural e normal de agir para poder ser considerado um momento de relaxe...
Eu sei que aquela pausa foi aproveitada para uma conversa séria ---------------------------- 1 de Outubro ---------------------------- A minha foto chegou à primeira página da maioria dos jornais italianos. E sem uma única autorização da minha parte. Apenas a RAI usou imagens devidamente solicitadas e autorizadas. O Correo della Sera não publicou a fotografia na primeira página. Contudo, esse é um jornal que costuma estar à venda nas bancas de jornais em Lisboa. Foi assim que constatei que a minha fotografia, sem os devidos créditos autorais, enchia metade da página 3 deste importante diário italiano. Outros jornais como o Il Messagero – que sei que me tentou contactar, mas só vi o email quando cheguei, à noite, a Lisboa -, o Il Mattino, Il Gazzettino, Il Resto del Carlino e L’Unità, todos colocaram a minha foto na primeira página sem terem obtido a devida autorização. E, por fim, também o Il Tempo colocou a foto em grande destaque na sua primeira página. O jornal que poderia ter sido o primeiro e único a publicar uma imagem em exclusivo, perdeu-a porque preferiu que eu a enviasse por email do que terem o rasgo jornalístico de procurar saber o que queria mostrar-lhes um jornalista estrangeiro, plantado em pessoa à porta de entrada do edifício do jornal no centro de Roma. Achei triste para o jornalismo, mas vi neste meu caso pessoal um dia exemplo de como o jornalismo em papel está a ser ultrapassado pelas redes sociais. Se o papel cumprisse o seu papel de dar novidades em vez de replicar as imagens e notícias dos dias anteriores, talvez se vendessem mais jornais.
-------------------------- 2 de Outubro -------------------------- Os efeitos políticos da foto aumentaram. O primeiro-ministro Matteo Renzi, na manhã desse dia, num encontro partidário para falar sobre o referendo à Constituição marcado para 4 de Dezembro, disse que era preciso “abrir os olhos” e olhar para o horizonte, “como fez a Raggi no telhado”. E com esta “deixa” pediu que “a imagem do dia” fosse projectada numa grande tela atrás de si. A foto surge no meio de uma série de aplausos. Renzi começou então por explicar aos membros do seu partido que aquela foto suscitava-lhe “ternura”. E fez depois uma análise semiótica do que aquilo representava para si. O primeiro-ministro de Itália olhou para a foto da presidente da Câmara de Roma no telhado da autarquia e desabafou: “A mim, esta imagem provoca-me um sentimento de simpatia. Se eu tivesse um telhado no Palácio Chigi, iria apanhar um pouco de ar em vez de estar ali fechado. Acrescentou que não valia a pena estar a fazer polémica sobre os motivos que a levaram a ir ao telhado, que a imagem representa uma dimensão “humana” de alguém ir apanhar ar fresco. E concluiu a ideia que o conduzia quando apresentou a imagem: “O problema, não é a Raggi no telhado. O problema é quando desce”. Estava criado um facto político. A palavra “telhado” entrou no jargão da política em Itália. E isso deve-se a um jornalista português que chegou a Roma como turista e saiu de lá como jornalista. ----------------------------------- Poesia ----------------------------------- A terminar este relato o mais detalhado possível, há ainda duas reacções à imagem que me chamaram à atenção pelo efeito que parece ter provocado em outros políticos italianos. Uma delas foi a do líder do PD no Senado, Luigi Zanda, que numa entrevista ao Corriere della Sera afirmou a propósito da imagem: “É uma mulher só. À sua volta não existe a cidade, não há o partido, não há a opinião pública. E sozinha não poderá enfrentar os gravíssimos problemas de Roma”. A segunda, aquela que mais me surpreendeu, foi do antigo presidente da Câmara de Salerno e actual governador da Campania pelo PD, Vicenzzo de Luca. No fim de uma cerimónia pública, ao comentar a escolha dos novos vereadores da presidente de Roma, desabafou que era mais do mesmo e que não havia renovação na política. Depois, perguntaram-lhe sobre a foto no telhado. O político, homem experiente, olhou para o interlocutor e disse que lhe fez lembrar palavras do poeta italiano Giacomo Leopardi, que viveu entre 1798 e 1837. De seguida, citou o início do poema “Le Ricordanze”, escrito pelo autor em 1829: “Vaghe stelle dell’Orsa, io non credea tornare ancor per uso a contemplarvi”. E perguntou: “Como não ficar comovido?”. Eu fiquei.

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20160806

Aniversário

Hoje, dia do 50º aniversário da Ponte Sobre o Tejo, ou Salazar ou 25 de Abril, é também dia de aniversário deste blogue, criado em 2003. Sei que tem andado parado, pois a maior parte da minha actividade está actualmente espalhada em algumas crónicas em publicações digitais ou na página pessoal no Facebook. Para celebrar este dia, eis algumas imagens de um passado não muito distante
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20151230

O banqueiro é agora do povo

Em Agosto de 2012 fui com o Jose Carlos Pratas Henriques até à Galiza. Era uma daquelas ideias "peregrinas" de dois jornalistas free-lancers que achavam que o mercado jornalístico iria depois receber de braços abertas o exclusivo que tínhamos em mãos: uma entrevista ao ex-banqueiro espanhol Mario Conde. A conversa foi reveladora e, penso eu, importante para perceber o mundo actual visto desde a perspectiva de alguém que esteve dentro de poderes muito elevados e que caiu e pagou uma pena. No regresso, batemos às portas de órgãos de Comunicação Social muito importantes. Todos recusaram publicar a entrevista. Ela ficou guardada e esquecida. Hoje, como "prenda" de ano novo, quando tudo está ainda pior do que estava - a dada altura falou-se de um dívida de oito mil milhões e agora já vai nos 40 mil milhões -, ofereço, de borla, aos meus leitores, o meu trabalho. Perdi dinheiro - e não foi pouco - nesta viagem. Para, no fim, ter a certeza de que tinha ali bom material e que ninguém quis dar depois o seu devido valor. Espero que saibam dar-lhe valor. Aqui vai e, recordem-se, isto é de 2012... Mario Conde em exclusivo O banqueiro é agora do povo Continua charmoso, isso é um facto. O antigo presidente do Banesto, Mario Conde, está mais velho, mais maduro e, depois de ter passado vários anos preso, encontra-se agora na plena posse dos direitos cívicos e tenta agitar a vida política no país vizinho. Mario Conde apresentou-se recentemente às eleições regionais na Galiza através de um novo partido, Sociedade Civil Y Democracia (SDyS). Teve uma votação residual, mas a carreira política não deverá ficar por aqui. Em 2014 haverá eleições europeias e o discurso da crise poderá atrair eleitores descontentes com os partidos tradicionais. Mario Conde, em entrevista exclusiva para Portugal, conta que foi vítima da perseguição dos antigos líderes políticos como Filipe González e José Maria Aznar que, em 1993, aproveitaram o caso Banesto para o afastarem da vida pública. E também ainda não esqueceu palavras de Cavaco Silva. Frederico Duarte Carvalho (texto) José Carlos Pratas (fotos) A casa chama-se A Cerca. Está a oito quilómetros da fronteira galega com Portugal, em Chaguazoso. Ali perto fica o Penedo dos Três Reinos, onde antes se tocavam os reinos da Galiza, Leão e Portugal. Mario Conde gosta de apontar nessa direção e dizer “ali é Portugal”. Teve um dia o sonho de criar uma união económica Ibérica para combater o poderio da Europa mais rica e, por isso, investiu entre nós, no Banco Totta&Açores. Mas, o então primeiro-ministro Cavaco Silva não autorizou a entrada de capitais espanhóis na banca nacional. Cavaco explicou então ao banqueiro que tinha uma linguagem para a Europa, onde defendia a liberdade económica, e outra para consumo interno, pois «quem me paga, são os portugueses». Essa frase, conforme escreveu Mario Conde ba niografia «Los Días de Gloria», ainda hoje lhe assalta o espírito quando olha desde a varanda de A Cerca para as terras de Portugal. Recorda o encontro que, em julho de 1993, teve com o atual Presidente da República. Foi seis meses antes da intervenção do seu Banesto. Depois, foram anos de polémicas jurídicas, três entradas na prisão e a morte da mulher, Lourdes, em 2007. Entretanto, voltou a casar e agora prepara-se para mudar a classe política espanhola. - Mario Conde, como foi que chegámos à situação económica em que se encontra hoje Espanha e Portugal? - Este é um processo longo, com causas políticas, económicas e sociais. As causas económicas são um mau entendimento do processo da moeda única. O que lhe vou dizer não é novo. Disse-o já por escrito ao primeiro-ministro espanhol, em 1992, que as economias europeias eram assimétricas. O que era bom para uns, não era para outros. Não podíamos sentar-nos à mesa a jogar póquer com alguém que tinha um milhão de pesetas e nós dez, porque perdíamos. O lógico teria sido montar uma estrutura económica, industrial e financeira no Sul da Europa antes de entrarmos no Euro. - Mas, isso, queixava-se na altura, iria criar uma Europa a duas velocidades… - Exacto. Mas, as pessoas não entendem o que significava duas velocidades. Pensava-se que duas velocidades era algo pejorativo. Que seria como estar numa segunda divisão. Na realidade, hoje já não nem estamos a duas velocidades. - Como assim? - Explico-lhe já. A minha ideia, em 1992, era a de criar uma estrutura económica e financeira no Sul da Europa. Daí o nosso investimento no Banco Totta & Açores, para criar uma estrutura financeira potente no Sul da Europa com a qual definir uma estrutura industrial para saber o que poderíamos ou não fazer. E, uma vez concluído esse projeto, falar de uma integração no Euro. Não se o fez por razões políticas. - Por razões meramente políticas? - Exclusivamente políticas. Há dias esteve aqui, nesta casa, uma das pessoas que fez o Euro… - Quem? - Não lhe posso dizer o nome. Foi um dos 50 homens que fez o Euro… - Pode-nos dizer, ao menos, a nacionalidade? - Belga. Estivemos a comentar a criação do Euro e ele acredita que o que foi um erro o que se fez. E foi por razões políticas. O Euro partia do princípio de que todos os membros iriam comportar-se de uma maneira adequada, mas resultou que países como Espanha, Itália e, principalmente, a Grécia, utilizaram o dinheiro da Europa não para financiar as suas indústrias, mas sim para a especulação imobiliária. E o que produziu o Euro? Uma enorme quantidade de dívida. Nós, espanhóis, estamos endividados. Não é só o Estado. São as famílias espanholas e as empresas financeiras e não financeiras. Quando alguém deve muito dinheiro, deve poder pagá-lo. E para o pagar, tem de crescer economicamente. E o que se está a verificar é que decrescemos. Isso faz com que os nossos credores receiem que não vão ser pagos e aumentam as taxas de juros. E chegámos a uma situação em que não há duas velocidades. Ou melhor, não há uma moeda única. - Não há? - Há um instrumento de pagamento único. Se fossemos americanos, o dólar que comprássemos em Chicago, Nova Iorque, Miami ou Dallas teria sempre o mesmo preço. Se somos europeus, o Euro não custa o mesmo se o compramos em Espanha ou na Alemanha. Quando um mesmo bem, o Euro, tem um preço para um alemão e outro para um espanhol, português ou italiano, é evidente que não é único. Alguns empresários e famílias não se dão conta disso. Se queremos montar uma empresa em Lisboa ou em Hamburgo, as necessidades são iguais para haver escritórios e adquirir materiais. Mas, para além disso, precisamos de dinheiro. Então os empresários vão a Hamburgo pedir dinheiro e, se o projeto é bom, dão-lhes dinheiro com três por cento de juros. Se forem a pedir em Espanha e, mesmo que o projeto seja bom, não lhes dão dinheiro. E, se o derem, é com juros de 10 por cento. Devido ao simples facto de sermos espanhóis, portugueses ou italianos, para podermos fabricar o mesmo que poderíamos fabricar em Hamburgo, temos de pagar mais sete por cento. Esta diferença está a comer a concorrência. Por isso, há a velocidade da Alemanha e, do outro lado, não há nenhuma velocidade. Há o “paro”, o desemprego nos países do Sul. - Isso não é nenhuma teoria económica. É a realidade… - A Alemanha está a financiar-se a custo zero, pois nós estamos a financiar-nos a custo sete. Isto significa que há poupanças espanholas que estão a derivar para a Alemanha. O grande beneficiário do Euro é a Alemanha, que empresta-nos o dinheiro para comprarmos os BMW, Mercedes e Audi e o dinheiro regressa à Alemanha na forma de benefícios industriais. E nós ficamos com um carro que não podemos sustentar e uma dívida que não podemos pagar. Hoje, o grande problema da Alemanha é ter visto que o mercado espanhol já não funciona e tem uma dívida. Então, quer cobrar a dívida. - Mas, a continuar assim, onde é que a Alemanha, no futuro, vai conseguir encontrar mais dinheiro para cobrar? - De momento, diz-nos para poupar dinheiro público. E há duas possibilidades para pagar. A primeira, pelo aumento dos impostos e a segunda com a diminuição dos gastos. Como não é certo que o aumento dos impostos gere o dinheiro necessário, baixa-se ainda os gastos. Mas, com isto arruína-se a economia do País. Pois, mas isso não é problema dos alemães. É o Euro… Isto são factos. - Mas, por que razão os políticos têm de ceder a estas regras? - Os políticos formam parte de uma estrutura de um sistema. O líder do Partido Popular espanhol pertence ao Partido Popular Europeu. Antes, havia uma classe política nacional, onde Filipe Gonzalez falava com Cavaco Silva, mas era diferente. Quando se criou o modelo da Europa, criou-se um sistema europeu que englobava uma nova classe política. Assim, não há oposição entre um político belga e espanhol, pois pertencem ao mesmo núcleo de interesses. Se o Euro acabasse, as classes políticas que o criaram, desapareceriam. Portanto, estão a defender os seus interesses. - Isso não poderá levar, inevitavelmente, a uma revolta popular, pois haverá um momento em que não se vai poder tirar mais dinheiro às pessoas? - Falei recentemente com um especialista em neurociências e que me fez um retrato do povo espanhol neste momento. As maiores angústias da atual sociedade espanhola são tristeza, medo, incerteza e indignação para com os políticos. Ora, isto é um cultivo pré-revolucionário. Significa que há violência contida que, a um dado momento pode rebentar. Em Espanha houve já um grupo de sindicalistas que entrou num supermercado e levaram carros de comida com a desculpa de que era uma confiscação por motivos de fome. E esse é o problema. As pessoas têm fome e têm de comer e dar de comer aos seus filhos. Em Direito há o chamado “estado de necessidade”, mas isto é um indício de que em Espanha pode haver desordens públicas, pois as pessoas estão numa situação de limite. Em Portugal, não sei como é… - Em Portugal, também se sofre com a crise, mas comparado com Espanha, o país é mais pequeno e as pessoas ainda contam, por exemplo, com a ajuda da família. - Isso também acontece em Espanha. Quando as pessoas perguntam como é que, com um nível tão elevado de desemprego, não há mais revolta? É a família. Os mais velhos, com as suas pensões dão de comer aos netos. A família funciona como amortizador da tensão social. Mas isto tem um limite, porque o dinheiro das pensões dos mais velhos também está a terminar. Esta situação não se pode sustentar num prazo de cinco anos, como dizem. Não há cinco anos. Diz-se que, em 2013, Espanha vai voltar a cair no PIB. Desapareceram cá 600 mil empresas. Estive no outro dia no aniversário da minha mãe, que fez 94 anos, e apareceram os meus tios de Portugal e disseram-me que a situação no País está muito mal, mas percebe-se que em Espanha há mais “movimento”. Não vou utilizar a palavra “violência”, vou utilizar a palavra “movimento”... - No seu caso, que foi banqueiro, controlou dinheiro, mas depois também foi condenado e preso… - Em 1993, tinha aquele projeto de criar uma super-estrutura Ibérica e encontrei-me com uma pessoa em Portugal que se chamava Cavaco Silva. Quando fui comprar o Banco Totta & Açores, ele disse-me que uma coisa era o que ele dizia para a Europa e outra era o que dizia para Portugal. Que os seus eleitores eram os portugueses e, portanto, não iria permitir que comprássemos o Totta. Depois, consentiu-se isso. Dei-me conta de que com pessoas que falam duas linguagens, não poderia ir a nenhum lado. Então comecei a dinamizar um movimento de sociedade civil em Espanha. Naquela altura, na oposição estava José Maria Aznar, que não era uma pessoa especialmente querida e havia o líder socialista que, apesar de poderoso, começava o seu declínio. Viram que aquilo que eu dizia chegava às pessoas e decidiram, entre ambos, que o melhor que poderiam fazer era intervencionar o banco e tirarem-me da vida nacional. Tenha em conta que, naquele momento, eu controlava o Banesto e meios de Comunicação Social, como a Antena 3. Tínhamos a palavra para ser explicada e, no bom sentido, a razão. - Um alemão, quando pensa nas leis para o Sul da Europa, está num escritório com ar condicionado, olha pela janela, está escuro e vê o trânsito fluido e uma sociedade próspera e organizada. Depois, quer levar as mesmas regras para o Sul da Europa, onde há mais horas de sol e existe um outro tipo de cultura e organização social no dia-a-dia. É possível impor em Espanha e Portugal as mesmas regras da Alemanha? - Não. Existe um espelhamento que é os EUA. Se os EUA são os EUA, então porque não haver os Estados Unidos da Europa? Porque não têm comparação. Os EUA construíram-se desde o zero, enquanto aqui há Nações que persistem. Inclusive com sistemas jurídicos diferentes. Nós, em Espanha, temos o modelo jurídico romano, enquanto na Alemanha têm o germânico. O modelo constitucional é diferente, nós temos constituições fechadas e os anglo-saxões têm constituições abertas. Com formas de ver a vida e de a entender profundamente. Com uma história de guerras, gostemos ou não. Para haver Estados Unidos da Europa é necessário haver uma identidade nacional europeia. Isso não existe. Existe uma identidade nacional espanhola, alemã, italiana ou portuguesa, mas não existe uma identidade nacional europeia que seja capaz de anular as identidades nacionais. Eu não digo que não possa vir a existir, mas hoje não existe. E se hoje forçam os Estados para uma super-estrutura maior, haverá um problema muito grave, porque a força das identidades é tremenda. Sobretudo, se nos forçam dizendo que, se não o fizermos, não nos financiam. Isso é muito grave. - Então, o que se pode fazer para inverter este quadro? Há soluções possíveis e realistas? - A situação real, a que vivemos hoje, é uma negação de tudo o que nos prometeram. Então o que devemos fazer? Sermos humildes e inteligentes. O quero dizer com isto? Sermos humildes é dizer, meus senhores, isto não funciona. Vamos repensar o que temos de fazer, mas não me digam que fora do Euro não há vida. Sim, há. Os noruegueses, dinamarqueses, ingleses e os suíços não estão mortos, estão vivos! E são os que estão a funcionar melhor. Não me digam que não há solução, pois há sempre solução. O único que, de certeza, não tem solução é isto de agora. A solução não pode ser um país que continue a empobrecer, a ficar mais triste, que a classe política continua a gerar cada vez mais diferenças. Temos de colocar estas economias em andamento e se os alemães o entenderem, é bom. Se não entenderem, pior para eles. - O que faria Mario Conde se fosse primeiro-ministro? - Creio que chagamos a um momento que, em Espanha, temos de fazer uma nova constituição e, para isso, é necessário abrir um período constitucional. Há uma série de coisas em Espanha que já se viu que não funcionam. Temos de reestruturar o modelo de Estado, pois este modelo de comunidades autónomas demonstrou-se ineficiente, pois uma coisa é a cultura, outra é política. Necessitamos de colocar urgentemente em marcha a economia e isso chama-se dinheiro. Portanto, tenho de dizer à União Europeia que necessito já desse dinheiro, com urgência, sem entraves. E se não o dão, terei de sair do Euro e gerá-lo eu mesmo. E se o derem, terão de o entregar como se eu fosse um Estado soberano e não com condições especiais. Admitiria regressar a um modelo de “serpente monetária”, o sistema monetário europeu, com uma desvalorização aproximada aos três por cento. Admito todos os controles, mas tenho a certeza de que, se não vier rapidamente uma quantidade muito importante para a economia espanhola, vamos ter uma descida maior daquela que temos e, no fim, não vamos conseguir pagar a dívida. É como dizem os devedores aos bancos: não lhe posso pagar, por isso ou me tira uma parte da dívida ou a dívida que tenho a curto prazo, coloca-a a muito longo prazo. E, se durante esse período de tempo, vê que cresci e as coisas estão a funcionar, eu antecipo ou perdoa-me metade e, quando esteja em condições de o devolver, devolvo-lhe a metade. O que não se pode fazer é afundar-nos todos. E pelo caminho que vamos, afundar-nos-emos todos. É urgente colocar-nos perante a União Europeia e dizer-lhes que ou dão o dinheiro que necessitamos para a economia ou saio do Euro. - E estará a sociedade espanhola disposta a aceitá-lo de volta depois de ter sido condenado e cumprido pena de prisão por má gestão do Banesto? Aliás, em Portugal temos um caso recente de um banco que foi intervencionado, o Banco Português de Negócios, conhece o caso, certamente, não? - Não. - Não sabe o que se passou em Portugal recentemente com o BPN? Era o banco onde trabalhou Alejandro Agag, o genro de José Maria Aznar… - Caramba… - Sim, de acordo com números da Oposição, o governo português deverá ter já injetado cerca de 8 mil milhões no BPN… - Oito mil milhões?!... - Sim, é uma estimativa que tem por base os 5 mil milhões, mas que uma comissão de investigação no Parlamento cifrou em 3 mil milhões. Entretanto, por imposição do acordo financeiro entre Portugal e a Troika, o BPN teve de ser vendido e acabou por ser comprado pelo banco angolano, BIC, por 40 milhões de Euros, depois de uma intervenção do primeiro-ministro português junto do governo angolano… - Isso é irracional. Para a Troika, tanto faz. É dinheiro perdido para Portugal. - Conheceu Cavaco Silva. Mas, conheceu ainda o antigo Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, que foi líder do PS português no fim dos anos 80 e é hoje vice-presidente do Banco Central Europeu? - Não conheço o banco central português, mas há muito tempo que digo que o banco central espanhol é um terminal do poder político. Olhavam quando lhes diziam para olhar e não olhavam quando lhes diziam para não olhar. Usa-se, como, por exemplo, se usou no meu caso, para inventar uma mentira e afastar alguém de um poder político. E, noutros casos, passa-se o contrário, pois esconde-se até que explode a bolha. E quando isso acontece, por que não se exige responsabilidades ao banco central? Porque faz parte de toda a estrutura do sistema. O governador do banco central português está em contacto com o do banco central espanhol, com o do banco central belga, francês. Gerámos um grupo de pessoas que se sucedem entre si e negam a democracia. Nós votámos em quem se apresentou em listas e depois não servem para nada, porque os que mandam não são aqueles em que votámos, senão um sistema de poder em que essas pessoas estão enquadradas. Conde na Internet O antigo banqueiro está ativo na Internet. Tem uma página oficial - http://www.fundacioncivil.org – e ainda uma conta Twitter pessoal - @mariocondeconde – onde se apresenta da seguinte forma: “Nací en Tui, una preciosa ciudad del sur de Galicia, desembocadura del Miño, frontera con Portugal, el 14 de septiembre de 1948. Presidente de SCD”.

20150115

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20150108

Ser "Charlie"...

Como anda agora toda a gente no jornalismo a dizer uma coisinha da moda, que fica sempre muito bem, que é o "Je Suis Charlie”, gostava que ficasse claro que soubessem bem o que andam a dizer. Ou seja, que aproveitem para conhecer a história da revista satírica francesa e a sua importância social. O humor é uma das armas mais fortes que uma sociedade tem. Eu, por exemplo, ficava imediatamente informado sobre a cena política francesa quando lia os cartoons do "Charlie Hebdo". Eram as piadas que se discutiam no café, no metro, nos escritórios de Paris. Era ali que sentia o pulsar da sociedade. Saber o que os fazia rir, pensar. Aquilo era mesmo muito sério. Não sei se os camaradas que ostentaram ontem e hoje as folhas negras a dizer que eram "Charlie", alguma vez conseguiram ser "Charlie". Ou se alguma vez conseguirão ser uma aproximação sequer de um "Charlie". Para isso, apresento uma versão muito resumida da sua história: em Setembro de 1960, o autor de BD, Fred – de origem grega - faz a capa do primeiro número de uma revista satírica que se escolheu chamar "Hara-Kiri". Dez anos mais tarde, em Novembro 1970, esta revista, que teve altos e baixos, publicou uma capa polémica logo após a morte do antigo presidente da República e herói da II Guerra Mundial, o general De Gaulle. Uma semana antes houvera um incêndio numa discoteca que se saldara em 146 mortos. A imprensa generalista francesa – os antecessores dos que hoje dizem “Je Suis Charlie” – já dava sinais de informação-espectáculo e noticiou as mortes debaixo da capa de “Baile Trágico – 146 mortos”. Assim, oito dias depois, quando morreu De Gaulle, na localidade de Colombey, o "Hara-Kiri" publicou, e bem, a manchete “Baile Trágico em Colombey – 1 morto”. Pretendia assim demonstrar a falta de profissionalismo dos camaradas dos outros jornais. Conclusão: a revista foi suspensa pela ministério da Administração Interna da França e, na resposta, nasceu então a "Charlie Hebdo". E "Charlie" vinha de Charlie Brown, mas também do diminutivo do primeiro nome do falecido presidente da França, Charles...

20141004

Open letter to Mr. Oliver Stone who recently visited Portugal and didn’t had the chance to know the following facts about the common history of Portugal and the US

Dear Mr. Oliver Stone, I’ve just read the story about your recent visit to Portugal published in the “Expresso” magazine. Knowing your work “The Untold History of the United States” I thought how ironic it was that your only interview in Portugal was to television SIC and newspaper “Expresso” – both of the same communication group – because they are the best exemple of what’s not told to the Portuguese public about their past and contemporary history.
"Expresso" said that you’ve visited Mário Soares at his home in Vau, Algarve. And you did that because you asked first who the President of Portugal was during the first Gulf War (1990-1991). Well, I don’t know if you were previously informed that a Portuguese President doesn’t have the same executive power as the US President. The power to decide the Government foreign policy and Defense strategy are in the hands of the prime-minister. If you were told that in 1990-1991 the prime-minister was the actual President, Aníbal Cavaco Silva, you bet you could have film material!
Aníbal Cavaco Silva was the Finance minister present on the last meeting with the Portuguese prime-minister Sá Carneiro and Defense minister Amaro da Costa, on December 4, 1980, the day these last two died on a plane crash.
A plane crash that was caused by an explosion on board – a fact only given as proven in 2004.
Nowadays, the Portuguese Parliament is investigating a possible link between their death and an investigation commanded by Sá Carneiro to an ilegal guns deal to Iran before the Reagan/Bush 1980 election. The 1980 “October Surprise” deal. Cavaco Silva had been ordered by Sá Carneiro to investigate a financial flow of ilegal money among the militar in Portugal, but he never carried out the investigation. Instead, after the death of Sá Carneiro he became prime-minister in 1985 and, like Mário Soares, who also was prime-minister before him, Cavaco Silva was submissive to the power in Washington.
That’s why you can find Portugal and the Lisbon airport mentioned as a third country in the Iran-Contra affair. Cavaco Silva is a personal friend of Bush senior, the former CIA director. As a matter of fact, Bush senior was present in the inauguration ceremony of Cavaco Silva as President of Portugal in 2006.
So, the name of the person who was in control of the Portuguese policy during the first Gulf War and who’s also a close friend of Bush senior was then the prime-minister Aníbal Cavaco Silva, now the President of Portugal.
I hope you can come a second time to Portugal. There’s a lot more of an “Untold” history that you would really like to know. Because it’s also your history that’s hidden here, in Portugal. All the best.

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